de mel

31.7.06

...e na tristeza
não sei se voces conhecem a história do chico bento, aquela do dia cinza e feio. hoje está muito, muito frio. dia cinza, de ficar de pijama grande de flanela da hora de acordar à hora de dormir, com pausa para o banho. de passar o dia no computador, fazendo o que é preciso, porque toda a tristeza está sendo gasta de uma vez só, e não sobra sentimento para gostar ou odiar o que se está fazendo. e não adiantaria tentar ficar alegre com o estágio que vai começar, com a tradução de alemão, com os dvds de filmes ingleses que eu comprei. não adianta, porque da mesma forma que a ansiedade e a dor de barriga eram muito minhas, a desolação também é. o namorado não passou no concurso.

sim, é preciso seguir em frente, mas em qual direção fica a frente? nós sabemos que existem os outros caminhos, e que existem problemas piores que esse, e que nada pode ser tão catastrófico assim. mas e os planos, e as vontades, e toda a preparação para a vida que seria? como fica agora a rotina, para que serve o despertador tocar, qual é o objetivo agora?

a vontade é passar os dias debaixo de muitas cobertas, esperando toda essa nuvem ir embora, torcendo para algum sol, que não vem se a gente ficar deitado. e passar as horas fazendo cafuné, e ter saudade dos beliscões que sempre doeram muito, e ouvir a risada mais alegre, o sorriso mais bonito, as músicas de felicidade mais desafinadas e com as letras inventadas. não dá para pedir isso agora. não dá para pensar nisso agora. porque toda felicidade, apesar de não ser proibida, não adianta. o nosso futuro, como seria a partir de hoje, não existe mais. e precisamos construir tudo de novo, todos os sonhos, todos os prazos, todos os caminhos.

vai passar, vai passar.

Sabe!?...

26.7.06

sangue, sangue
não consigo me concentrar, não quero ler o que eu preciso. nada. a minha tpm se alonga a cada mês. e sempre aquela mesma história, a dependência, que me parece tão natural, só percebo que não é quando alguns flashes me mostram que eu sou a única dependente. talvez eu devesse assistir bridget jones. se não para ajudar, pelo menos para um pouco de conforto. e tudo aquilo em que eu penso, todas as decisões corretas mas que eu não tenho vontade de tomar, tudo o que o mundo me diz que eu devo fazer, por quê?

Chatterton, suicidou
Kurt Cobain, suicidou
Getúlio Vargas, suicidou
Nietzsche, enloqueceu
E eu, não vou nada bem


e me disseram para prestar atenção se minhas infinitas críticas não resvalam (foi esse o verbo) para a arrogância. resvalar, não sei se vocês sabem, é um jeito educado de dizer que já se é aquilo para que se resvala. fiquei pensando que as pessoas que são arrogantes não acham que o são, e vai ver é assim, eu sou arrogante e não importa toda a minha insegurança, baixa auto estima, tudo aquilo que eu conheço tão bem, isso não importa, porque no fundo eu sou arrogante e não percebo isso. sabe, não foi uma crise, porque não é assim que se descobre ser arrogante e no instante seguinte se deixa de ser. só porque descobriu que é. então não perdi meu sono por isso, e mandei na verdade todos à merda. tá vendo, isso é ser arrogante.

E eu, puta que pariu, não vou nada nada bem

Sabe!?...

24.7.06

eu estou ansiosíssima com a prova do namorado. é amanhã, pra quem não se lembra (alguém esqueceu?). tô fazendo minha pesquisa e pensando em amanhã. ele precisa de sorte nas perguntas e confiança. estou muito, muito ansiosa. não sei como vou me comportar na hora.

Sabe!?...



foto de webcam: lava-se, passa-se o creminho e não se mexe mais.

Sabe!?...

22.7.06

necessário:
You from New York,
You are so relevant.
You reduce me to cosmic tears.


Sabe!?...


do cabelo, as pessoas que comentam algo têm falado bem. mas isso é bastante suspeito, porque foram a família do namorado (e ele avisou a família dele que eu ia cortar, então já deve ter preparado tudo para eu não me sentir mal) e a célia, que faz minha unha e puxa muito meu saco. eu estou gostando porque é muito prático, só.

Sabe!?...

20.7.06

e ontem eu tive uma noite de férias.

Sabe!?...

18.7.06

expectativas, perspectivas. cortei meu cabelo com a intenção de deixá-lo sempre crespo (porque é mais fácil), mas o cabeleireiro secou e portanto o aspecto não é por enquanto o definitivo. medo. amanhã tem sessão sex and the city na casa da lia, talvez com a paulinha-convalescente, comendo bobagem, ai que delícia. vai ser prêmio pelo intensivo de italiano, todo dia acordando às seis e meia durante as férias. amanhã tem prova, estou estudando. e vou passar o resto do mês, e de agosto, estudando, porque minha iniciação está atrasadíssima e eu temo pelo resultado.

fora isso, nenhum plano, nenhum sonho, nenhum objetivo.
para não pensar nisso, livros (alvinho e clarice fora de cogitação, para conseguir dormir sem chorar).

Sabe!?...

17.7.06

algumas coisas pitorescas me têm acontecido. fui olhar no dicionário, diz que pitoresco é graciosamente original, então não é esse o adjetivo correto, que as coisas que me têm acontecido não são nada graciosas. já contei para muita gente a história, então não vou repetir, mas tem a ver com os ingressos - já míticos - da flip e o site do ticketmaster, que eu não recomendo a ninguém. resumindo, o site deu pau, e, primeiro, registrou seis compras minhas - iguais. passei o dia ligando para o telefone deles, fiquei a tarde toda ouvindo musiquinhas e não consegui falar. eis que me cancelaram os pedidos, todos, e me mandaram comprar novos ingressos, naturalmente quando todos já se tinham esgotado. tudo para dizer que vou ver a lilian ross pelo telão, com tradução simultânea - se eu for à flip.

sim, existe uma chance de não ir. não pensem que isso seria ruim: seria a maior felicidade. é que eu estaria em alguma estação de esqui (sci) com o namorado, comemorando a aprovação dele. queridos, rezem por mim, se tiverem religião. eu não acredito nessas coisas, mas o namorado acha melhor garantir. rezem portanto por ele (a prova é na terça, dia 25), e por mim.

e depois eu tento escrever mais alguma coisa.

Sabe!?...

16.7.06

sabe o que eu odeio? quando eu tenho planos traçados com precisão e vem alguém e me diz que eu vou ter que fazer isso e aquilo. como se eu não tivesse planos próprios, como seu eu passasse meus dias à disposição de alguém que arranjasse algo pra eu fazer, como se eu fosse só mais um filho sem planos que obedece o pai, bênção, meu pai, e agora, quer que eu lave sua bunda também?

Sabe!?...

14.7.06

ontem estava escrevendo um post sobre classificações das partes do corpo de acordo com tamanho e formato. o computador deu pau, copiei o texto numa folha de papel e ficou por isso mesmo. achei melhor não postar aqui, dá medo imaginar os tipos de buscas que dariam meu blog como resultado. qualquer dia, em algum bar, conto as minhas teorias classificatórias.

faltam alguns dias para a prova final do concurso do namorado, e eu estou nervosíssima. ontem não conseguia dormir. claro que o fato de ter descansado à tardezinha contribuiu para o sono zero, mas eu não parava de pensar nos velhotes sentados lá na frente fazendo perguntas estranhíssimas. (lembrei da dona hirsuta do homem que copiava)

hoje de manhã meu ônibus estava saindo da cidade, passamos ao lado de uma clínica de estética e uma funcionária dessa loja estava andando que nem tonta, dando pulinhos (usando bota - cor de rosa - por cima da calça, o mau gosto da estação) e com o cabelo preso de um jeito estranhíssimo, bem em cima e meio pro lado, quase estilo boné do sérgio malandro. eu achei que parecia um pavão cor de rosa. o motorista do ônibus fez um nossa que primeiro me deixou enojada (eu fico enojada com manifestações em voz alta de apreciação das mulheres feitas por machos copuladores). depois ele comentou com um cara que estava ao lado que ela devia estar muito feliz, afinal era sexta-feira, e que tinha mesmo que ficar feliz. então eu me senti culpada por ter sentido aquilo, era só o motorista observando o mundo. não importava que ela fosse uma perua de cabelo espetado e bota cor de rosa, importava que ela parecia feliz. então eu fiquei feliz, e ouvi músicas felizes vindo pra casa. hoje é sexta-feira, pessoal!

Sabe!?...

12.7.06

suspense
o resultado do exame ficou pronto e o laudo diz que eu não tenho nenhuma alteração nas vias urinárias.
amanhã vou ao médico para ele me contar o que está no laudo.
a grande questão é: eram duas pedrinhas que eu expeli? estou realmente ficando louca?

Sabe!?...

11.7.06

(eu queria fazer uma crônica)

Sabe!?...


pérolas aos porcos
então eu fui no médico e descobri que as pedras são mesmo escuras. não é fantástico poder dizer isso com riso de escárnio para seu irmão-sabe-tudo?... ah, é sim. claro que ele retrucou com uma perguntinha irônica, o médico disse que elas também boiam? infeliz. o médico ficou sim encucado com as minhas pedras que bóiam e depois afundam. e me pediu pra fazer xixi num vidro, todos os meus 562 xixis diários, e olhar contra luz. sabe, eu não tenho essa relação de amor que algumas pessoas têm com partes suas do corpo. sim, as pedras são minhas, são o meu cultivo particlar de pérolas negras, o xixi também é só água...

sim, posso imaginar os bons apreciadores de escatologia fazendo numa estante coleções de potinhos datados, com régua medindo milímetros cúbicos.

Sabe!?...

10.7.06

tinha uma pedra no meio do caminho
meu desafio agora é achar pedras no xixi. primeiro vem a expectativa da dor (ainda nenhuma), depois a meia hora olhando para o próprio xixi procurando alguma pedra minúscula ou areia, alguma coisa que confirme que os litros de água que me afogam não têm sido em vão. bem. hoje de manhã eu vi algo que parecia uma pedrinha e, convenhamos, estando ali, só poderia ser uma pedrinha (não podia ser alguma poerinha anterior ao meu xixi porque eu checo a pureza da água antes). e lá estava ela. era preta, e isso me parece un po' strano. mas só podia ser uma pedrinha, e era mesmo grande, eu devia ter sentido algo.

quando contei no almoço pra todo mundo, meu irmão riu de mim. primeiro falou que a pedra era mais densa que a água, então não ficaria boiando. depois começou a levantar hipóteses (sujeirinha, fio da calcinha...) para a natureza do que eu sempre soube que era uma pedrinha saída de dentro de mim. quando eu contei que era preta, ela riu mais ainda. falou que não era mesmo, que a pedra vai ser esbranquiçada. meu pai me falou pra não levar o que ele diz em consideração. e eu não levo mesmo.

pois bem, o saldo de hoje, além de muitos xixis, é uma pedra grande (a da manhã) e algumas pedrículas (inclusive uma confirmou a diferença de densidade e afundou depois de um tempo. chamei meu irmão pra ver e não sei por que ele não quis).


(e esse post, apesar de não ser tão nojentinho, eu dedico ao meu amigo que adora coprofagia - e whisky)


Sabe!?...

9.7.06

hoje quem saiu da dancinha do faustão foi a hortência - eu descobri que o nome dela se escreve com c.
não agüento mais beber água, estou me sentindo alagada por dentro. boiando dentro de mim mesma.

e as próximas semanas serão terríveis, cheias de compromissos. a ic, claro.


Sabe!?...

7.7.06

apedrejada ou viva o voltaren
a alegria de ontem foi o último suspiro antes da morte. queridos, estou voltando do hospital, tenho pedras (ou areia, isso ainda não é certo) nos rins. vocês não podem calcular a dor, e eu sei que todo mundo sempre diz isso. sofri. agora estou bem porque o voltaren, ah, o voltaren... tenho medo de como vai ser daqui a pouco.

nunca senti tanta dor, estava pensando nisso enquanto esperava a minha vez no raio x. tive os machucados e cortes normais de crianças mais ou menos comportadas, e aquela história da cirurgia do ovário. sim, daquela vez teve bastante dor, mas não como foi hoje. era forte, constante, não tinha o que fazer pra parar. com exceção, claro do voltaren-delícia-na-bundinha.

tô agora vendo tv e fazendo sudokus, esperando o que vai acontecer. as minhas reflexões sobre pessoas que trabalham na área de saúde vêm depois.


Sabe!?...

6.7.06

necessário
esse é o post necessário, dada a onda de tristeza e depressão desse blog. no meio de tudo isso, um dia bastante razoável, feliz. não que meus problemas com jornalismo tenham acabado ou eu tenha explodido em outra, forte, confiante, escritora. mas foi bom - e eu preciso contar isso, antes que pensem que estou à beira do suicídio (a tempo: eu não teria coragem).

o dia bom começou com a aula de italiano, que está bem legal (sem contar as expressões fantásticas que se aprende). depois o texto ótimo do fiorin que estou lendo, devorando, o melhor texto sobre linguagem que já li. então o tcc da paula leite, que foi muito muito bom, pessoas na mesma sintonia, todo mundo falando daquilo que sempre foram as minhas questões lingüísticas, éticas, tudo (sim, eu dei pitaco). e então a reunião com a minha orientadora, tudo certo.

(contando assim não parece tão empolgante quanto foi)

quero ver conseguir dormir cedo. bastante excitação por aqui.

Sabe!?...


das palavras e das coisas

hoje eu aprendi o looking forward to em italiano, que vem a ser in attesa di. isso me deixou muito feliz (davvero, ou veramente, que são sinônimos). agora falta o sem mais, subscrevo-me, que eu adoro para encerrar todas as minhas discussões.

Sabe!?...

5.7.06

extra! extra! extra!
eu quero ganhar dicionários de presente.
eu quero viver entre palavras, mergulhada nelas, em todas as línguas, minha coleção de signos. viva a estética.


Sabe!?...


uma derrota por dia
a viagem que eu ia fazer, não vou mais. tudo porque eu inventei de última hora, apesar de ter vontade dela desde ano passado, e convidei as pessoas, mas todo mundo trabalha, menos eu. com essa parte não tenho problema. então ninguém pode ir comigo, e eu não quero ir sozinha. descobri que eu preciso dos outros sempre, mesmo para me sentir sozinha. só sei me sentir sozinha quando estou com os outros. quando estou sozinha, sem ninguém por perto, estou bem comigo, me faço uma boa companhia. mas não em lugares estranhos. eu nunca vou sozinha para lugares estranhos, porque eu preciso dos outros para me mostrar como é viver. então eles vivem, vocês vivem, e eu percebo que não vivo igual, e por isso sou sozinha. é, eu preciso dos outros para ser sozinha.

Sabe!?...

4.7.06

uma derrota por dia
é mesmo uma merda, e nem isso eu sei falar por conta própria, preciso de outras palavras. preciso de outras prioridades, outros compromissos, outros planos. porque eu não sei ser sem outros, não sei.
existem dois caminhos. o dos outros, que é tão melhor que o meu. e o meu, que nem caminho é.

não sei mais falar com as palavras que eram minhas. então eu paro.

Sabe!?...


uma derrota por dia
sim, sim, é interessante ir aos lugares e conhecer as pessoas para depois poder falar deles. no entanto, a preocupação com o falar deles é tão grande que distorce toda a experiência, e o resultado disso é o viver para contar. vale a pena?

Sabe!?...

3.7.06

uma derrota por dia
espero que o tempo voe
para que você retorne
pra que eu possa te abraçar
e te beijar
de novo.


Sabe!?...

2.7.06

uma derrota por dia
ele, que nem me conhecia, pensava estar falando de mim, e falava com raiva. eu reparei nos olhos dele, e vi que deixou de bater palmas quando chamaram meu nome, e que ele falava tudo aquilo olhando para todos que estavam lá, menos para mim. as palavras já eram minhas, para que olhares. e ele dizia alguma coisa sobre liberdade, sobre pássaros que se acostumam com a liberdade do bater de asas dentro de sua gaiola e não sabem o que fazer quando são livres de verdade. que precisam da gaiola. e ele dizia também alguma coisa sobre auto confiança, e outra sobre não se responsabilizar por seus defeitos - mas a palavra não foi defeito - e jogar a culpa do que não consegue nos outros, sempre em um terceiro. ele dizia tudo aquilo sem olhar para mim, sem me conhecer. ele nunca trocou duas palavras comigo. a não ser quando, assim que nos conhecemos, me deu um sermão de dez minutos - no relógio - porque eu tentei ajudar. ele achou que era uma crítica, eu não sabia ainda como ele reagia às críticas. ele também não me conhecia, nunca me conheceu. no entanto, é possível que falasse sobre mim. é possível que tudo que juntasse de mais errado, reunido naquela descrição de pessoa, que era para mim, se encaixasse no que eu sou.

sim, é possível, porque quando a gente está perto demais de um problema, não enxerga direito os detalhes. eu estou comigo há 22 anos, e juro que parecem mais quando eu penso. e ele nunca esteve comigo, embora pense saber tanto de mim. talvez ele saiba tanto daquilo que convencionou ser o anti. o anti alguma coisa. o oposto do que ele quer que sejamos. e então juntou tudo no anti, e eu era o anti daquela vez, porque eu fiz uma pergunta, fui a única a questionar alguma coisa. então eu estava errada, eu era o anti, todos me acharam o anti, porque ninguém, em momento algum, me olhou nos olhos, e eu era o anti de todo mundo. eu era o que ninguém queria ser, o que ninguém podia ser. e talvez eu seja mesmo tudo isso. eu sou o dormir até mais tarde, eu sou o descansar no fim de semana, eu sou o assistir filmes idiotas só para não precisar pensar sempre, eu sou o almoçar quando dá fome, eu sou o que não esconde os próprios interesses, sou o que gosta de ter tempo para si, e isso é ser o anti. o anti não defende os princípios da humanidade, o anti não trabalha todo dia toda hora para salvar o mundo, o anti... o anti sou eu.

parabéns, colegas, o anti sou eu. sim, é mariana meu nome, eu que estava falando aquelas coisas, mariana, marquem aí. eu que pedi para cobrarem mais de mim e do mundo, mas esqueci, como pude esquecer? que só o anti precisa de cobranças externas, que os não-anti são suficientes sozinhos, que vocês já sabem tudo sozinhos, que vocês conseguem tudo a que se propõem, como pude esquecer que só eu sou o anti?

eu cansei.
não sirvo para essa bosta de profissão hipócrita. não sirvo para essa bosta de mundo que finge todo dia.
não sirvo porque sou o anti, porque sou egoísta, porque sou egocêntrica, porque sou como todos vocês, colegas, que são meu modelo de vida. porque eu sou o anti, e vocês são aqueles que vão salvar o mundo. mas eu sou o anti, então eu não posso, eu deveria me envergonhar de querer me comparar a vocês, de querer ser como vocês.

poema em linha reta
do fernando pessoa, que era anti.

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

**

eu sei onde ir buscar as lágrimas, e vai ser outro dia, na mesma semana, em que eu vou chorar como criança, deitada na minha cama, no escuro, já precisando respirar pela boca, os olhos inchados, rosto todo salgado. eu vou chorar de pena de mim, eu sei do que devo ter pena, e é também de ter achado que estava certa todo esse tempo, para então ver que certo está o mundo, eu só sou errada, eu não sei fazer nada, eu não gosto de fazer nada, eu não me importo com ninguém. e eu achava que o mundo era assim, mas se envergonhava. não, o mundo não é assim. o mundo tem sentimentos solidários. o mundo quer se salvar. eu estou mesmo naquela margem de erro de todas as estatísticas. eu sou o erro. e não é bom ser o erro, por mais correta que eu me sentisse. não importa se a minha coerência é mais coerente, se ela não for a do mundo. não importa se a minha sinceridade é a mais sincera se ela não for a do mundo. margem de erro. sempre existem os errados, e eu sou o do pior tipo: o mais comum.

Sabe!?...